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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Nossa Bossa

O som mais alto que a luz,a luz mais forte que o som.Dia sim, dia não, varia o tom.
O som ensurdece,
a luz cega.
A sinestesia enlouquece.
A planta se nega,
a voz não enxerga.
Mas à loucura,
tudo se entrega.
Distante é o som aveludado,
suave é a luz que adentra o porão.
A bossa e a poeira reluzente,
em nossa e na poesia brilhante,
em vossa e na possa gratificante,
desembocam de poucas bocas.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Olhos à Margem

Cinzento é o cristal que reluz em praça pública,
são as ofuscadas estrelas, é a pele rachada.
Verde é a jade invadida por raios matutinos,
é o carvão cintilante, é a pedra rechaçada.
Vazia é a mulher recoberta por diamantes,
de cabelos dourados, boca estonteante.
De olhos cinzentos, risadas alarmantes.
Oca, ocos, poucos, muitos querem. Cegam.
Estonteante é a jade em forma de mulher.
Na penumbra, tem olhos verdes, dois amantes.
De margem à floresta tropical.
Insaciáveis, harmônicos.
Preciosos, fusíveis.
Amantes são rechaçados,
enquanto poucos reluzem,
em praça pública.
Reluzem podres anjos que
harpa não sabem tocar.
Que não possuem mais asas.
Que na penumbra,
caem em suas tumbas.

Exato Inexato

Deuses se erguem
enquanto mortais imergem.
Incessante, infundado. Vós bradais.
Em vão, descontrolado. Vós negais.
Não negueis. Bradai. Mostrai vosso ser.
Sede vós mesmo. Mostrai vossa sede.
Só então podereis desenvolver-vos.
Tereis que ser para que venhais
a ter sido. Ter sido vossa mais
perfeita forma inexata.
Inexato fostes.
Inexato sois.
Inexato sereis.
Mas não digais
que seríeis.
Não diríeis.
Erguei-vos. Aceitai.
Tende postura sagrada.
Trilhai o caminho das pedras.
E com as pedras, construí
vosso próprio colosso.

Vi-vos

Da cozinha, passos.
Do quarto, laços.
Da varanda, maços.
Da sala, cansaço.
Escuto, vejo, faço,
passo, almejo, penso.
Noite adentro.
Imenso, paro.
Sinto-me fitado, amordaçado,
pelas grandes paredes pálidas.
Sinto-me citado, incitado a
ser concreto branco alvo.
Ouço vossos longos cantos,
vejo vossos longos rostos.
Sinto-vos perecer ao meu
parecer, nato ato. Mato.
Mato-vos?
Não, vi-vos.
Travo-vos?
Não, retroativos.
Retro, são.
Ativo, sou.
Retração
se ativou.
O nato ato
reage bem,
de fato.
E tudo parou.
Até que eu
decida que
tudo volte,
parou o mote.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pois Não?

O anoitecer indescritível,
o inescrupuloso amanhã,
o inegável ontem,
e o irrevogável hoje.

A tulipa rosa do cabo de carvão
esfola minha mão, cansaço.
A flor negra na camisa do palhaço
atira água no sabichão, vão.

Vasto vão, vasto esguicho,
esses diziam “não”,
estes ficavam com aquele bicho.

O bicho, o não,
o bichão, a bichinha,
o sem chão, o nicho,
a facção, a picuinha.
Falta cair a fichinha.

E aquele, que dizia “vão”,
pregava em vão.
Pois não era ouvido,
pois não sabia,
pois não havia sentido,
pois não havia.
Pois não?

sábado, 27 de dezembro de 2014

Soneto das Canções

Letras lavam minha alma,
apagam o fogo destrutivo,
impõe o cativo,
ativo em minha palma.

Melodias secam minha avidez,
combatem minha petulância tamanha,
deslaçam a rigidez,
acabam com a ânsia medonha.

Canções me renovam,
me sangram,
me compõem.

Brincar de cantar, brincar de ouvir,
brincar de compor, brincar com o amor.
Brincar de ser eu, brincar de ser poesia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Soneto do Caminho

No vão da inércia
nada se cria,
sequer se copia.
Nada se inicia.

Na voracidade da paixão,
há velocidade, há disposição.
Tudo se encaixa com perfeição
em meio a essa imensidão.

No vão da voraz cidade,
quando tudo pede velocidade,
tenha serenidade.

Na disposição de criar,
busque antes o seu lugar,
para um nó não atar.